sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A rejeição à passagem da Tocha Olímpica pelo Brasil

Olimpíadas Rio 2016! Esse ano o Brasil encerra o ciclo de grandes eventos realizados em território nacional: em 2014 foi o fiasco da Copa do Mundo, em 2013 o descontentamento generalizado que explodiu em meio à Copa das Confederações, e dois anos antes, em 2011, foi realizado os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, sob a imagem da corrupção, obras inacabadas e um gasto de dinheiro público sem tamanho, situação similar a todos esses grandes eventos. Orbitando a realização dos jogos olímpicos, um conjunto de problemas sociais, que aliás se agravam, pintam o quadro social da realidade nacional: explosão de violência, com cerca de 50 mil mortos por ano; desemprego crescente, corte de direitos sociais, precarização de políticas públicas, cortes orçamentários e reformas na legislação, enfim, uma piora generalizada nas condições de vida que significa mais favelas, mais desempregados, mais crimes e por consequência, o crescimento da vergonhosa violência policial, dentre uma diversidade de outras condições que resultam das tarefas realizadas para diminuir os custos da acumulação de capital sob as políticas neoliberais, o chamado regime de acumulação integral (VIANA, 2009). E os políticos e partidos políticos? O nível generalizado de corrupção reforça o crescente sentimento de descrença com as instituições políticas brasileiras.                                                                                                            Link do texto completo http://redelp.net/revistas/index.php/rpo/article/view/03anjos010/429

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

PORQUE NÃO EXISTE UMA LEI QUE FAÇA OS POLÍTICOS CUMPRIREM AS PROMESSAS DE CAMPANHA?

          A cada ano pós eleições (no Brasil de dois em dois anos) ganha corpo no interior da população uma sensação de desilusão, engano, frustração e impotência quando se trata dos assuntos e acontecimentos políticos, isto é, em se tratando da atuação política esperada dos “representantes escolhidos pelo povo” bastam poucos meses de ocupação no cargo para que as práticas reais dos políticos passem a frustrar a grande maioria dos eleitores. Porque surge esse sentimento de descrença com a política? Porque os políticos não cumprem com o discurso eleitoral e por vezes assumem uma prática oposta ao que prometeram fazer? “Porque político é tudo igual”! Responde a consciência conformista, coberta de meia verdade. “Porque nada muda”! Reclama o espírito niilista. E até mesmo a sensação nada firme do cidadão comum calejado de observar uma infinidade de políticos passarem pelos palanques e cargos políticos e que parece preferir se prender à ilusão de acreditar de que “ele está fazendo o que pode”.
          Compreender a origem dos sentimentos de frustração e de impotência e das ideias conformistas e niilistas com relação à política significa entender as bases fundantes das relações políticas no capitalismo, do funcionamento do estado burguês e das classes com interesses opostos à real participação popular (ou seja, da maioria da população) nos assuntos e processos políticos. E ao compreendermos as fontes da apatia geral nos é possível apontar alternativas, instigar novas formas de prática política e assim reverter o quadro social com relação à política.
            A complexificação das relações sociais sob o capitalismo cria um conjunto de instituições que interferem na relação social fundamental que ergue a forma de sociedade fundada sob o domínio do capital: a relação de produção que explora o trabalho e sobrevaloriza o capital; para perpetuar a relação de extremo conflito existente entre as duas classes sociais são criadas instituições que atuam no sentido de amortecer os conflitos sociais e quando não possível atuar repressivamente para reafirmar os interesses das classes dominantes. A principal instituição que atua regulando as relações conflitivas entre as classes sociais é o estado e é por meio do Estado que se monopoliza a prática política, ou seja, as decisões que são tomadas no interior da sociedade e são impostas aos seus membros, grupos e classes sociais. A política na sociedade capitalista é então o âmbito da sociedade ocupado por pessoas que têm como função regular e perpetuar a dominação da classe capitalista, por isso busca hegemonizar a prática da ação política que faz parte da sociabilidade dos seres humanos. A figura do político profissional é o mais acabado resultado da dominação burguesa, é o produto da necessidade de contenção e controle do conflito social, daí que novas classes surgem, dentro das instituições capitalistas, tais como intelectuais, burocratas, gestores e funcionários públicos, membros de partidos, sindicalistas, etc. O emaranhado de relações concretas vivenciadas quando do processo eleitoral dificulta a percepção desse processo de dominação, mas ao reconstituirmos a forma de dominação e opressão burguesa articulamos uma poderosa arma para enfrentar as ideias e sentimentos apáticos, e contra a opressão do dia-dia levantar armas ideais, organizacionais e concretas de luta.
            Com base nas contribuições teóricas de Nildo Viana em sua reflexão sobre O que são os partidos políticos? consideramos as instituições repressivas e perpetuadoras da ordem capitalista da seguinte forma:
-Estado: relação social de dominação de classe; é uma instituição que reproduz a sociedade, ou o poder da classe dominante, e além disso reproduz a si mesmo por meio da classe que nele está presente, no estado moderno é a burocracia, que controla as condições materiais de existência do Estado (sobretudo o poder financeiro, os meios de administração e o aparato militar). Todo Estado significa uma relação de dominação de classe mediada pela burocracia com o objetivo de manter e reproduzir as relações de produção às quais as classes exploradas e dominadas estão submetidas (VIANA, 2003) ou dito de outra forma é o Estado o capitalista coletivo ideal (ENGELS, s/d).
-Burocracia: Como surge a burocracia? Esta classe está fundada na relação social em que existe dirigentes e dirigidos; a classe dominante nas relações de produção complexifica as relações sociais, já que é uma dupla tarefa manter o controle da produção e os mecanismos de reprodução da sociedade ao mesmo tempo, daí ocorre uma divisão no interior da classe dominante, divisão que no capitalismo dá origem à burocracia como classe social que controla os mecanismos de controle político da sociedade (e reproduz a si mesmo em outras esferas da sociedade, escola, interior do trabalho, lazer, cultura); A burocracia é a classe social que auxilia a burguesia no controle político/administrativo de organização da sociedade, sobretudo, no controle do proletariado. Na sociedade moderna uma das principais expressões da burocracia é a burocracia partidária.
Democracia: O que é a democracia? Democracia é uma forma de regime político que se caracteriza pela participação restrita das classes sociais na constituição das políticas estatais; por regime político entendemos a forma como o estado se relaciona com as classes sociais; desta forma, a democracia é uma forma de dominação de classe em que a burguesia consegue apresentar os seus interesses particulares como sendo interesses universais a toda a população; a participação restrita significa que a massa da população pode influenciar na constituição das políticas estatais, mas não pode ultrapassar os limites estabelecidos, quando ultrapassa esses limites surge outra forma de regime político, a repressão pura ou a ditadura, dominação sem máscaras e ilusões;
Partidos: Organizações burocráticas que visam à conquista do poder do Estado e buscam legitimar essa luta através da ideologia da representação e expressam os interesses de uma ou outra classe ou fração de classe existente; Burocracia, conquista o estado, ideologia da representação, representam classe (Viana, O que são Partidos Políticos?)
-Características da burocracia partidária: controle de recursos humanos e financeiros, disciplina, unidade; recursos necessários para o objetivo de conquista do controle do Estado.
-Burocracia partidária é o controle dos dirigentes políticos tendo como objetivo conquistar o poder do estado; partidos que buscam o poder por meio das eleições precisam simular e dissimular os seus interesses, ou seja, declaram um interesse falso e ocultar e omitir o interesse verdadeiro;
Tendo em vista as instituições acima apresentadas rejeitamos o Estado, a democracia e os partidos políticos na medida em que estes se encontram em um ponto fundamental: a necessidade de institucionalizar a luta de classes e assim amortecer os conflitos existentes na sociedade; os conflitos são voltados para as instituições do Estado que busca resolvê-los por meio da legalidade estabelecida, daí as eleições serem o momento em que cria-se a ilusão de que os problemas sociais podem ser resolvidos somente com o voto correto.
            Desvelado o conteúdo histórico e social em que brotam os políticos profissionais nos resta claro e evidente quais são seus vínculos e interesses: se estão inseridos em instituições que têm por objetivo manter a ordem social, são eles agentes de manutenção dessa ordem social. Com a participação popular restrita possibilitada pelos regimes democráticos, os partidos e políticos profissionais ganham destaque e protagonismo no interior das relações políticas hegemonizadas dentro do Estado. A prática dos políticos profissionais se constrói dentro dos partidos políticos e tem como objetivo fundamental conquistar o poder do Estado. Mas para que tal objetivo se concretize, a organização interna de cada partido se estrutura de forma hierárquica e com a especialização de funções no interior do partido, obrigando assim que a relação dirigentes e dirigidos crie uma intensa disputa interna em torno dos postos e posições mais altas, o que requer dos políticos profissionais saberem transitar entre os mais influentes, conhecer o funcionamento burocrático da organização, acumular recursos financeiros e alianças com grupos econômicos que financiem as campanhas eleitorais, a lógica funcional que controla os partidos e políticos profissionais está submetida à racionalidade instrumental de acúmulo de recursos, técnicas e competências para assim ampliar seu espectro de influência no interior da sociedade e vencer a competição em relação as demais partidos e candidatos concorrentes.
            Para vencer a concorrência interna (no partido) e vencer os outros candidatos os políticos profissionais têm de controlar e manejar recursos humanos e financeiros, estarem submetidos à disciplina de organização do partido, ter unidade e eficiência em suas ações, daí o necessário vínculo com as elites econômicas.
            Para ocultar o verdadeiro caráter de suas ações e os interesses a que estão vinculados os políticos profissionais atuam por meio de dois mecanismos que Nildo Viana definiu como a dissimulação e a simulação. Os políticos dissimulam os reais interesses de suas ações, ou seja, ocultam os vínculos e o que pretendem fazer, e ao mesmo tempo simulam interesses e compromissos na tentativa de criar vínculos com um número cada vez maior de eleitores e grupos no interior da população. A dissimulação e a simulação descobertas poderiam então ajudar o eleitor a separar o bom político do mal político? Não, de forma alguma, simplesmente pelos motivos acima explicitados, sendo que a mentira generalizada para acobertar os reais interesses é tão somente produto, resultado da razão de existir dos políticos profissionais no interior dos regimes democráticos, dentro das instituições do Estado e nos seus vínculos com as classes dominantes.
            Sendo os políticos profissionais agentes da manutenção da ordem social atuando através de instituições (partidos e sindicatos) eles não podem criar leis que atentem contra seus próprios interesses. Mesmo numa conjuntura em que políticos “progressistas” possam alterar as leis (o que é muito difícil na prática de ser efetivado tendo em vista a estrutura mais ampla de funcionamento do Estado, sobretudo da divisão de poderes) estão irão inevitavelmente retornar ao status anterior, seja via golpe de estado, seja por meio de pressão legal, parlamentar, jurídica, etc. É por isso que outras medidas tais como a revogabilidade dos cargos não são adotadas, pois a funcionalidade da relação social de hierarquia, mando/obediência, subordinação em que se baseia o Estado moderno não permite a real participação popular (da maioria da população) nos assuntos e decisões políticas. A esfera da política é delimitada aos políticos profissionais e à burocracia partidária.
            Tendo em vista esta forma de relação social, somente a alteração e transformação radical da atual forma de organização social possibilita que a política seja parte efetiva e real da vida do conjunto da população, decidindo por meio da auto-organização, ruptura com a organização do Estado, o que deve ser cumprido e desenvolvido pela coletividade. A auto-organização no ambiente de trabalho, na escola, nos locais de moradia cria a relação social da igualdade e da solidariedade, rompendo com os conflitos de interesses individuais e de classe. A separação da política (em instituições) é superada e passa a acontecer na própria produção da vida social de forma coletiva e para o coletivo, surgindo assim, a prática política coletiva, oposta a que domina na sociedade capitalista. Enfim, a auto-organização é a forma de relação social que supera as promessas vazias e cria o mundo novo na medida de nossos desejos.

Diego Marques.

Bibliografia
VIANA, Nildo. O Que São Partidos Políticos. Edições Germinal: Goiânia, 2003.

ENGELS, Friederich. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. S/d. Disponível em https://www.marxists.org/portugues/marx/1880/socialismo/cap03.htm Acessado em 26/09/2015.

domingo, 15 de novembro de 2015

Inimigo imaginário e forças formadoras de opinião: o caso dos terroristas islâmicos.

A mais recente onda de violência em Paris, capital francesa, é o destaque principal da imprensa mundial. Podemos afirmar que na atualidade existem fatos que podem ser debatidos por bilhões de pessoas ao redor do mundo, isto graça ao estágio de desenvolvimento dos meios de comunicação, que determina as conversas, sentimentos, pensamentos de indivíduos vivendo na Austrália, na Bolívia, Singapura, Rússia, Nova York, etc. Portanto, o poder dos meios de comunicação em difundir notícias e determinar temas relevantes de serem debatidos é o ponto de partida para compreendermos um aspecto da realidade social contemporânea, realidade esta que alguns chamam de “capitalismo global”[1]. Qual aspecto que aqui queremos evidenciar? Aquele que trata dos chamados atentados terroristas, nome genérico para atos de violência cometidos por grupos religiosos identificados com a religião islâmica. Antes se faz necessário notar que a palavra terrorista já foi utilizada em outros contextos históricos para designar outros grupos, tais como tendências do movimento anarquista na virada do século XIX para o século XX, grupos de esquerda durante a ditadura militar no Brasil nas décadas de 1960/80, militantes anti-apartheid na África do Sul, grupos de esquerda da Itália dos anos de 1970, jovens palestinos, etc. Desde o início dos anos de 1990 a palavra terrorista é quase sinônimo de islâmico, mulçumano, isto é, vincula-se o terrorista aos membros da religião que domina o norte da África, o Oriente Médio e importantes regiões da Ásia, além de formarem extensas comunidades em países do Ocidente.
Quando surge historicamente a questão do terrorismo islâmico? A primeira grande ação a repercutir mundialmente ocorreu dentro do estacionamento das torres gêmeas, com a explosão de carros bombas em 1993. No ano seguinte foi a vez da Associação Mutual Israelita na Argentina explodir pelos ares. Nos anos seguintes as explosões foram em embaixadas dos EUA em países africanos. Assim se fez a fama nos noticiários de nomes como Osama Bin Laden, que simbolizou a nova geração de terroristas. A década de 1990 é o período histórico imediatamente posterior ao fim da Guerra Fria, do esfacelamento da União Soviética e de toda uma geração de terroristas “comunistas” que ganharam vida nos filmes de Hollywood. Os EUA já não tinham mais um inimigo comum que representava os valores opostos à sua civilização, mas como veremos é necessário tal figura.
Pela ousadia do evento e a repercussão mundial causada, o impacto dos aviões contra as Torres Gêmeas em 2001 abriu uma nova era de conflitos sociais. Com o término da Guerra Fria, os EUA tinham agora condições de avançar e conquistar novos mercados em regiões que antes estavam sob controle ou influência direta da União Soviética, notadamente o leste europeu, o sudeste asiático e países da região do Oriente Médio. Já nos anos de 1980 os EUA armaram e treinaram Sadam Hussein, Osama Bin Laden, as lideranças do Boko Haram, assim como fizeram com as forças militares que atuaram na repressão e nos massacres aos movimentos sociais na América Latina durante o século XX, e ao redor do mundo, ainda hoje. O objetivo inicial de treinar grupos de origem islâmica era o de conter o avanço das forças imperialistas da União Soviética, mas acabada a URSS sobraram armas e milhares de assassinos bem treinados. Com o avanço do capitalismo para as novas regiões, os grupos antes treinados passaram a se opor ao modo de vida capitalista e aos valores representados pelo ocidente, o exemplo mais consagrado pelo sucesso foi a organização Talibã (estudantes na língua pachto) que governou o Afeganistão de meados dos anos de 1990 até o ano de 2001.
Feito este breve e sumário roteiro histórico voltemos à questão inicial: os atentados terroristas como tema mundial. O que significa os atentados terroristas serem objeto de conhecimento instantâneo e quase-universal? Significa que uma corrente de opinião se forma sobre o tema, sendo pois hegemonizada e controlada pelos meios de comunicação em massa, que estão nas mãos do capital comunicacional oligopolista internacional. Inseridos no contexto histórico que apontamos (a relembrar: avanço do mercado capitalista para novas regiões do mundo, hegemonia do império estadunidense, milhares de forças paramilitares armadas e treinadas) os atentados terroristas (uso da violência para exterminar vidas civis) são expressão da disputa de forças entre o império dos Estados Unidos e povos insubordinados, que enfrentam o avanço do mercado capitalista sobre sociedade ainda não totalmente capitalistas, e totalmente dominada por valores culturais pré-capitalistas, marcados principalmente pelo predomínio da ideologia religiosa.
O nosso ponto de partida nos dá representações evidentes: os terroristas são fundamentalistas islâmicos. Essa representação é transmitida, sobretudo, pelos meios de comunicação (mas também por intelectuais – como Samuel Huntington e sua ideia de choque de civilizações que defende que os povos de cultura islâmica não possuem condições para absorver os valores ocidentais – por políticos, pela burocracia do estado com seus militares e burocracia civil, organizações da sociedade civil, etc.). No universo de informações veiculadas dois pontos são o eixo: terrorismo e islâmico. São as duas informações básicas que servem para formar opinião e simultaneamente desinformar das verdadeiras determinações sobre algo, posto que de um lado, apresenta os autores do fato, e por outro lado, produzem confusões generalizadas sobre os acontecimentos. Como era de se esperar, a notícia simplesmente apresenta o ocorrido, trata-se do mecanismo básico para finalizar moldando uma opinião: o fundamentalismo islâmico é a rejeição dos valores ocidentais, da democracia, do capitalismo, das instituições.
Nos atentados de Paris nessa sexta-feira 13 de 2015 os culpados foram prontamente identificados (e até mesmo no tweeter os prováveis responsáveis assumiram a autoria): o grupo terrorista Estado Islâmico, também chamado de Isis (em inglês) ou Daesh (árabe). A informação não é questionada, é modelada, reproduzida e assimilada em todas as regiões do mundo. O principal agente transmissor são os meios de comunicação em massa. As pessoas têm então contato com o que aconteceu através das notícias veiculadas, desta forma as opiniões se formam por meio dos meios de comunicação. O que são as opiniões? Segundo Nildo Viana, opiniões são “um conjunto de ideias (bem como afirmações e posições) expresso pelos indivíduos sem maior coerência, rigor, fundamentação, sendo geralmente substituíveis com relativa facilidade” (VIANA, 2015a). Conforme a torrente de informações obtidas, e geralmente tais informações são simples, com poucas variações de conteúdo e reforçando uma ideia básica, os indivíduos moldam suas opiniões, constantemente reproduzindo o que assimilou de forma não refletida e por vezes sem coerência com outras opiniões expressadas. Desta forma, os meios de comunicação são um dos principais agentes, ou forças de formação de opinião, com força sobretudo em momentos de crise, acontecimentos dramáticos, etc.
A partir deste ponto podemos avançar para a segunda questão por detrás da corrente de opinião que se forma diante de determinados acontecimentos: a criação de um inimigo imaginário. Partiremos aqui da ideia defendida por Nildo Viana sobre o que é um inimigo imaginário. Para este sociólogo inimigo imaginário a “princípio pode ser definido com um grupo social que é considerado inimigo e que, portanto, deve ser combatido, sob formas variáveis e que não é um verdadeiro inimigo na realidade concreta, por isto ele é “imaginário”” (VIANA, 2015b). Tomando as palavras por suas definições Viana afirma ser necessário levantar algumas questões para entender como se criam os inimigos imaginários: quem produz o inimigo imaginário? Quais são os grupos sociais que podem se tornar inimigos imaginários? Em que contexto o inimigo imaginário se torna alvo da coletividade? (VIANA, 2015b).
Os inimigos imaginários são criados pela classe dominante “visando desviar a atenção para este suposto inimigo (...) é uma forma de deslocar o conflito de classe para um outro tipo de conflito (nacional, racial, religioso, etc.)” (Idem). Substitui-se o inimigo real pelo imaginário, e com isso todos os conflitos concretos e as formas de solução, criando desta forma obstáculos para a ação da classe revolucionaria: descobrir a realidade e transformar tal realidade. Assim, quem cria os inimigos imaginários são os membros do estado, os meios de comunicação, a classe dominante, a intelectualidade. Os inimigos imaginários em potencial numa dada sociedade são os grupos que carregam em si um histórico de preconceito, marginalização, oposição à ordem vigente e ao status quo. São grupos políticos, imigrantes, grupos étnicos, sexuais, religiosos, etc. A estes grupos são atribuídos a culpabilidade, a periculosidade, a inconfidência (não-confiança) e o exotismo (Idem).
O capitalismo global, ou regime de acumulação integral, tem em sua força de expansão a ação do neoimperialismo, isto é, por meio de políticas militares, organizações internacionais, tratados econômicos os estados imperialistas retomam uma política agressiva de imposição dos interesses do capital transnacional sobre os países subordinados, buscando ampliar a integração ou efetivar a integração ao mercado mundial nos países em estágio de capitalismo pouco desenvolvido. A política externa dos países imperialistas é a continuidade de sua política interna, buscando efetivar os interesses de suas classes dominantes. Para tanto, as sociedades internas de diversos países são manipuladas conforme os interesses do centro imperial, daí que constatamos que os EUA invadem países se justificando na defesa da democracia ou dos direitos humanos e em outras regiões apoiam a consolidação de ditaduras.
No caso dos países do Oriente Médio as políticas imperialistas buscam afirmar o controle sobre as fontes energéticas, ampliar o mercado consumidor, intensificar o processo de proletarização das populações nacionais (que em grande parte vêm de tradição tribal, de seitas) e impor governos alinhados com as políticas imperialistas. Esse processo é muito conflituoso, pois se de um lado, governos com características autocráticas (Arábia Saudita) e ditatoriais (Kwait) mantém-se firmes com apoio dos EUA, por outro lado, mudanças de lideranças, grupos e partidos no poder foram alteradas desde o processo de revolta popular iniciado no ano de 2011 denominado de Revolta Árabe, que tiraram do poder ditadores que se assentavam a décadas tais como Mouamar Khaddafi (Líbia), Hosni Moubarak (Egito) e Ben Ali (Tunísia). Esses levantes se demonstraram um fato inesperado para as forças imperialistas, pois além de derrubarem governos que mantinham a fonte do petróleo, ameaçou as lideranças políticas que estavam subordinadas aos interesses de Washington, tal como Arábia Saudita, Bahrein, Kwait.
As revoltas árabes por sua extensão, radicalidade (sem lideranças, seculares, reivindicações políticas e por melhorias nas condições de vida) e força (vários governos derrubados) apresentaram ao mundo outra feição das sociedades árabes, a força do proletariado em Alexandria, a força dos jovens no Cairo, das massas superexploradas da Líbia, da Tunísia, da inicial solidariedade internacional de organizações dos trabalhadores contra o governo de Bashar Al-Assad na Síria, ampliou a força dos povos curdos, ao que parece fez emergir uma nova vida social em Kobane (pelas notícias que de longe chegam, se bem que ainda sem muitas confirmações). Mas posterior à Primavera Árabe veio o Inverno Imperialista e com ele o Estado Islâmico, produto direto do apoio financeiro e militar dos países imperialistas (EUA, França, Inglaterra). Pois de onde viriam os modernos armamentos do EI? Sua moderna frota de caminhonetes japonesas, seus sofisticados sistemas de filmagem, gravação e roteirização dos massacres cometidos contra suas vítimas? Foi o apoio a obscuras forças paramilitares na Síria e no Iraque que possibilitou as condições para o surgimento do EI como um racha da Al Qaeda, que por sua vez tinha sido treinada e financiada pela CIA em fins dos anos de 1970 e começo dos anos de 1980.
O inimigo imaginário que as classes dominantes querem construir sobre a figura do islamismo busca confundir e ocultar os verdadeiros responsáveis pela barbárie que se espalha pelo mundo. Mas não podemos aceitar as correntes de opiniões que se forma, nem tampouco silenciarmos sob a onda de revanchismo e ignorância que se espreita. A luta cultural contra as ilusões criadas pela classe dominante requer considerarmos os movimentos políticos que acontecem pelo mundo, manifestarmos solidariedade e combater toda forma de racismo e xenofobia opondo-nos por meio da solidariedade internacional a todos os movimentos sociais que contestem a ordem estabelecida e apontem para novas relações sociais. O passado deve ser combatido, junto com todas as forças que ele representa.

Diego Marques, 14 de Novembro de 2015. 

Referências bibliográficas
VIANA, Nildo.  As representações cotidianas e as correntes de opiniões. In Revista Espaço Livre, Vol. 10, nº 9, jan/jun. 2015a.
VIANA, Nildo.  A invenção do inimigo imaginário. Disponível em http://informecritica.blogspot.com.br/2011/04/invencao-do-inimigo-imaginario.html Acessado em 14 de Novembro de 2015b.



[1][1] Usaremos aqui essa expressão tendo em vista a capacidade que ela tem de fazer as pessoas assimilarem o fenômeno que queremos explicar, isto porque pelos objetivos do texto buscamos nos posicionar diretamente sobre os fatos aqui relatados para um público mais amplo. Contudo, atentamos para os que nos leem, que essa ideia de capitalismo global possui diversos problemas, pois não dá conta da especificidade do momento atual do capitalismo, na medida em que trata-se do período de acumulação integral, intensificação da repressão, estados neoliberais, neoimperialismo, ideologias pós-modernas entre outros fenômenos, que são sinteticamente explicados na obra de Nildo Viana O capitalismo na era da acumulação integral.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O que a memória dos 50 anos do golpe militar tem de importante

Desta forma, a importância que a memória dos 50 anos do golpe militar de 1964 tem para os grupos oprimidos no Brasil é a de que há um uso político recorrente das forças militares intervindo nas crises políticas e sociais ao longo da história nacional. As instituições militares que formam uma parte do estado nacional, juntamente com a burocracia estatal, a burocracia permanente do estado, têm seus interesses específicos porque formam uma classe específica na divisão do trabalho (para manter a eficiência da estrutura militar é necessário elevados gastos com especialização, armamento, munição, equipamentos, etc.) e vive da produção do mais-valor realizada pelo proletariado e que em parte é aproveitada para cobrir os custos com o militarismo.

In Revista Posição Ano 1, Vol. 1, num. 3, out./dez. 2014.

http://redelp.net/revistas/index.php/rpo/article/view/5anjos4/105


Contra o Sindicalismo Revolucionário

Entre fins do século XIX e início do século XX, toma forma uma tendência dentro do movimento operário denominada de Sindicalismo Revolucionário. Foi esta uma época de intensificação da luta de classes, sobretudo da luta do movimento operário pela conquista da redução da jornada de trabalho para 8 horas e de aumento dos salários. Esse ciclo de lutas proletárias que ao seu fim gerou transformações no próprio processo de valorização do capital (ganhando predominância a estratégia de extração de mais-valor relativo) teve que passar por cima das organizações reformistas que defendiam a negociação, os acordos de gabinete, a aplicação da lei, enfim, o controle sobre os trabalhadores, notadamente a socialdemocracia e seus métodos parlamentares, que foi atacada por novas organizações de caráter revolucionário que resgatavam a ação direta, a auto-organização e a necessidade de “transformação revolucionária” da sociedade capitalista. É nesse bojo das lutas operárias que surge a tendência do Sindicalismo Revolucionário como projeto de organização e transformação fortemente influenciado pelas ideias anarquistas. Passado um século desse intenso movimento, o Sindicalismo Revolucionário é resgatado como estratégia para fazer avançar a luta proletária e retirar a classe da condição de apatia em relação aos seus interesses históricos e mesmo imediatos. Mas os tempos são outros, e tendências que se formavam naquela época dentro das organizações dos trabalhadores, principalmente nos sindicatos, hoje estão consolidadas e incorporadas à ordem burguesa, demonstrando que vivemos sob um novo ciclo da luta de classes e que, como consequência, uma nova radicalização do proletariado deve surgir, agora atropelando as organizações que um dia surgiram do seu interior. 

In Revista Enfrentamento, Nº 16, julho/agosto de 2014, pgs 117-145

http://www.enfrentamento.net/enf16.pdf